Carlos A. Moreno |
Rio de Janeiro (EFE).- Maior produtor e exportador mundial de carne bovina, o Brasil lançou em julho um programa que permitirá rastrear a trajetória de todo seu gado, do nascimento ao abate, e que será vital para combater o desmatamento, de acordo com especialistas consultados pela Agência EFE.
Trata-se do Programa Nacional de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos (PNIB), uma antiga reivindicação tanto dos países importadores de carne preocupados com as normas sanitárias quanto das organizações ambientais interessadas em evitar a venda de gado proveniente de áreas desmatadas, principalmente na Amazônia.
De acordo com o cronograma estabelecido pelo Governo Federal no final de julho, a partir de 1º de janeiro de 2033 estará proibido no país qualquer movimentação de gado que não esteja devidamente identificado e registrado nos inventários nacionais, e todos deverão ter um brinco ou etiqueta eletrônica de identificação.
A iniciativa, que demorou a ser implementada e permite verificar o cumprimento de normas sanitárias e ambientais, ajudará a combater o desmatamento, uma das principais fontes de emissões de gases poluentes no Brasil, segundo especialistas consultados pela EFE.
“O programa atrasou devido à mentalidade de um setor no Brasil que acredita que rastrear o desmatamento é rastrear a produção. Pelo contrário, se não houvesse desmatamento, a rastreabilidade do gado não seria necessária”, afirmou o secretário-executivo do Observatório do Clima, Márcio Astrini.
Segundo o coordenador da maior rede de organizações ambientais do país, o programa é vital porque evitará que o consumidor acabe pagando por um produto que financiaria a destruição das florestas.
Para Bruno Vello, analista de políticas públicas do Imaflora, o decreto de 27 de julho que estabeleceu o cronograma para a implementação do programa é muito importante, porque define prazos.
“É bom, porque até agora não tínhamos prazos ou informações, mas agora sabemos que está em desenvolvimento”, afirmou.
GADO DE QUALIDADE
O analista econômico Gilberto Braga, pesquisador do IBMEC, afirmou que a iniciativa é importante porque permite demonstrar a qualidade do rebanho brasileiro, não apenas em termos de sabor e maciez, mas também sobre sua origem, sanidade e impacto no meio ambiente.
“Oferece um rastreamento completo e absoluto do gado e de suas consequências. Será possível monitorar a preparação do produto e seu impacto ambiental, além de estabelecer padrões e comparações e determinar os compromissos do produtor”, disse.
O cronograma prevê a implementação do programa em quatro etapas, a primeira das quais começou em julho e determina o desenvolvimento e a operação de um sistema informatizado nacional, além de um banco de dados no qual todos os animais serão registrados e suas informações serão atualizadas em tempo real.
A segunda etapa, com prazo final até 31 de dezembro de 2026, exige que todos os órgãos de sanidade agropecuária dos governos estaduais adaptem seus sistemas ao nacional.
Na terceira fase, entre janeiro de 2027 e dezembro de 2029, os animais começarão a ser identificados com o registro voluntário de dados como sua origem, a fazenda que os cria, suas vacinas, as empresas para as quais são vendidos, o local de abate e o destino final de sua carne.
Na última fase, entre 2030 e 2032, todas as exigências, até então voluntárias, passarão a ser obrigatórias.
O cronograma foi elogiado pela Confederação da Agricultura e Pecuária (CNA) por dar aos criadores tempo para se adaptarem operacional e tecnicamente.
“A norma reforça os compromissos do setor com a modernização da defesa agropecuária, a transparência das cadeias produtivas e o fortalecimento da sanidade animal, e permite ampliar os mercados”, afirmou a entidade em comunicado.
A rastreabilidade do gado é um dos temas que serão discutidos no III Fórum Latino-Americano de Economia Verde, que a Agência EFE organizará em São Paulo nesta quinta-feira (4).
O evento reunirá autoridades e especialistas para debater sobre a crise climática e conta com o patrocínio de ApexBrasil e Norte Energia, além do apoio de IBMEC, Observatório do Clima e Imaflora.