Papel de catadores é chave para fechar tratado global contra poluição por plásticos em Genebra

Natalia Kidd |

Buenos Aires (EFE).- O reconhecimento do papel estratégico dos catadores de base é o foco dos esforços das organizações não governamentais que participam, em Genebra, das complexas negociações para alcançar um tratado internacional vinculante que ponha fim à poluição por plásticos.

Convocada pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), a sessão do Comitê Intergovernamental de Negociação (INC-5.2) do Tratado Global sobre Plásticos busca chegar, nesta quinta-feira, a um acordo sobre o texto definitivo do pacto, sobre o qual ainda existem numerosos pontos em discussão e fortes resistências, sobretudo por parte de países produtores de plásticos e de petróleo.

Neste fórum, centenas de organizações da sociedade civil, líderes de catadores de base e coalizões empresariais comprometidas com uma economia circular inclusiva unem esforços para que os 184 países que participam da negociação assinem um tratado vinculante, justo e ambicioso nos compromissos a serem adotados.

Um trabalho fundamental

Um de seus principais objetivos é que o tratado, negociado desde 2022, reconheça o papel estratégico dos catadores na gestão e mitigação da poluição por plásticos, assim como o papel dos povos indígenas e das comunidades mais afetadas pela poluição.

“É fundamental que o artigo de transição justa seja priorizado e leve em conta principalmente os catadores de base”, afirmou à EFE a coordenadora do Programa de Economia Circular Inclusiva da Fundação Avina no Brasil, Paula Pariz.

Cerca de 60% dos plásticos recuperados no mundo são fruto do trabalho dos aproximadamente 40 milhões de catadores de base existentes no mundo.

Pariz, que participa das deliberações realizadas em Genebra desde 5 de agosto, ressaltou que “há mais de quatro gerações, os catadores de base trabalham, sobretudo no Sul global, na última fronteira para acabar com a poluição, recuperando plásticos e reinserindo-os no ciclo de produção”.

“Nunca foram reconhecidos, e agora é o momento de fazer isso”, afirmou.

As organizações defendem a inclusão dos catadores no preâmbulo do tratado e no artigo sobre transição justa, bem como que sejam mencionados nos artigos sobre gestão de resíduos e financiamento.

“Falamos da necessidade de dignificar, reconhecer e dar visibilidade, mas, sobretudo, de melhorar as condições dos catadores de base no mundo. Queremos fazer com que nossa voz seja ouvida na esperança de que este tratado seja ambicioso, vinculante e que interrompa a poluição”, disse à EFE a porta-voz da Aliança Internacional de Catadores, Soledad Mella.

Economia circular e responsabilidades

O grau de ambição do tratado ainda não está garantido, persistindo as discussões sobre se as metas a serem estabelecidas devem ser vinculantes ou compromissos voluntários.

“O tratado, para ter efeito, deve ser ambicioso e considerar não apenas os aspectos econômicos, mas também o impacto social e ambiental da crise dos plásticos”, disse à EFE a pesquisadora responsável pela Unidade de Ciências de Dados sobre Reciclagem da Fundação Avina, Romina Malagamba.

O PNUMA advertiu que, a menos que seja assinado um tratado global, os resíduos plásticos triplicarão até 2026, causando grave impacto na saúde humana e animal.

Segundo dados da ONU, são produzidas anualmente cerca de 400 milhões de toneladas de plásticos no mundo – metade de uso único –, das quais apenas 10% são recicladas. Cerca de 11 milhões de toneladas acabam todos os anos em lagos, rios e mares.

Um dos objetivos é passar do atual modelo linear de produção e descarte para um modelo de economia circular, que considere todo o ciclo dos plásticos, desde design até produção, reutilização e descarte.

“O problema são os aditivos e produtos químicos, e o fato de haver uma enorme quantidade de plásticos de uso único que não são reciclados”, alertou Malagamba.

De acordo com um estudo da consultoria Eunomia e do grupo de pesquisa Zero Carbon Analytics, divulgado durante as deliberações em Genebra, sete países (China, Estados Unidos, Arábia Saudita, Coreia do Sul, Índia, Japão e Alemanha) concentraram dois terços da produção mundial de plásticos em 2024.

“Todos somos responsáveis pelo planeta, mas não temos o mesmo nível de responsabilidade; as assimetrias são enormes. Por isso, é importante alcançar um tratado ambicioso, justo e vinculante”, concluiu Malagamba. EFE