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Starmer, o sóbrio homem das leis que devolveu o Partido Trabalhista ao poder

Enrique Rubio |

Londres (EFE).- Keir Starmer chegou nesta sexta-feira a Downing Street como se nunca tivesse previsto que isso fosse acontecer. Este sóbrio homem das leis, um procurador que se tornou político, continua a ser um enigma para o Reino Unido, embora tenha conseguido tirar o Partido Trabalhista da sua longa travessia pelo deserto.

Sóbrio pode ser usado considerado sinônimo de chato, hermético, insosso e restrito. Mas também como moderado, pragmático, racional e sensato. Fica a gosto do freguês.

O lado bom de jogar com as cartas fechadas é que há tantos Starmers no imaginário coletivo quanto eleitores no país. E nenhum assustou o eleitorado o suficiente para que não se confiasse a ele as chaves do número 10 de Downing Street.

Desde que o Partido Conservador começou seu desmantelamento por capítulos nos últimos mandatos (primeiro com as festas na pandemia de Boris Johnson, depois com a calamidade fiscal de Liz Truss e finalmente com a inexperiência política de Rishi Sunak), Starmer tinha bem claro que apenas um erro próprio o afastaria do poder.

Isso irritou a base trabalhista, mas ao mesmo tempo enviou uma mensagem de calma ao país: vocês podem me dar as rédeas, não farei coisas estranhas.

Para ser justo, Starmer não mudou um centímetro ideologicamente em anos. Disciplina fiscal, rigor nas contas, promessas alcançáveis ​​e seriedade na gestão constituem o cerne da sua mensagem.

Nada disso fez os eleitores pularem de euforia, mas também não os impediu de votarem nele.

A esta altura, Starmer já deve saber que a percentagem de votos que obteve (34%) é consideravelmente inferior à que seu antecessor, Jeremy Corbyn, tão carismático quanto divisionista, obteve nas eleições que perdeu em 2017 (40%).

A diferença é que daquela vez a conservadora Theresa May obteve 43% dos votos e agora Sunak ficou com 24%.

Se recorrermos a uma comparação futebolística das que Starmer tanto gosta, estas eleições estiveram mais próximas de um gol contra para os conservadores do que de um espectacular gol de bicicleta trabalhista no último minuto.

O recurso futebolístico não é trivial: o futebol tem sido um elemento central da campanha (a maioria dos comícios foram realizados em pequenos estádios) e é uma parte intrínseca da personalidade do líder trabalhista, como explica o jornalista Tom Baldwin na única biografia autorizada de Starmer, tão completa quanto benevolente.

ORIGENS HUMILDES.

Apesar da sua obsessão pela privacidade, o novo primeiro-ministro contou em várias ocasiões os detalhes da sua infância em uma família da classe trabalhadora que lutava para sobreviver.

Starmer nasceu em 1962 em Surrey, sul de Londres, zona tradicionalmente burguesa e conservadora, onde sempre se sentiu, segundo a sua biografia, um pouco deslocado.

A figura do pai, artesão com fortes convicções esquerdistas, é de capital importância na explicação do personagem.

Seu pai mantinha uma enorme distância emocional dos quatro filhos, ao mesmo tempo que concentrava as suas energias no cuidado da sua esposa, Jo, que sofria de uma rara doença autoinflamatória, algo que Starmer recordou amargamente em diversas ocasiões.

Aluno modelo de uma ‘grammar school’ (escolas públicas para os melhores alunos), o novo chefe de governo estudou na Universidade de Leeds e mais tarde em Oxford, onde se deixou cativar pela defesa dos direitos humanos.

Desde muito jovem flertou com os ramos mais radicais do Partido Trabalhista, chegando ao ponto de proclamar em uma entrevista de emprego para um escritório de advocacia que “propriedade é roubo” (embora mais tarde tenha reconhecido que se tratava de uma provocação).

Apesar de tudo, os que lhe são mais próximos sempre detectaram nele uma essência de “patriota do povo”, um homem de ordem com apego ao seu país e às suas tradições, longe da imagem de um advogado elitista e cosmopolita como a direita o retrata.

Starmer, por exemplo, nunca abriu mão dos jogos de futebol com os amigos ou da sua cadeira no estádio do Arsenal, o que o mantém com os pés no chão.

UMA PERSONALIDADE INDECIFRÁVEL.

Nem o seu biógrafo nem os jornalistas que o acompanharam nos últimos anos foram capazes de decifrar completamente Starmer.

Para começar, costuma ser muito reticente em falar sobre sua vida pessoal (pouco se sabe sobre seus dois filhos) e suas convicções. A vocação e a autoestima que costumam acompanhar os políticos não são aparentes à primeira vista.

No entanto, provou ser implacável quando necessário. Tornou-se chefe do Ministério Público em 2008, depois de ter construído uma reputação como advogado de direitos humanos.

Seis anos depois, deixou o Ministério Público para dar o salto para a política como candidato trabalhista e logo chamou a atenção de Corbyn, que o incorporou à sua equipe, primeiro como porta-voz de Imigração e depois do Brexit.

Após a renúncia de Corbyn devido à derrota em 2019, Starmer se posicionou como candidato unitário nas primárias e foi eleito para reconstruir o partido.

A partir de então, não hesitou em expurgar Corbyn pela sua inação contra o antissemitismo e laminar todo o setor crítico.

O resultado de quatro anos de mudança de rumo veio hoje. Agora é a vez de Starmer navegar em águas ainda mais problemáticas do que as do seu grupo. EFE